Balanço e equilíbrio financeiro.

Conheça o Balanço e os rácios da sua avaliação, o que significa ter uma situação líquida positiva e como se determina as necessidades de financiamento para reforço do fundo de maneio.

O balanço é a demonstração financeira menos conhecida da generalidade dos empresários e gestores, mas é uma das mais importantes. É um pouco como o presidente da Assembleia Geral dos clubes: apesar de ser o cargo mais importante, a generalidade dos sócios muitas vezes não conhece o seu titular, a não ser quando é necessário tomar as principais decisões em assembleia geral ou quando há problemas graves.

Quando é preciso tomar decisões importantes, como vender parte da empresa ou pedir um empréstimo substancial, a análise do Balanço é crucial. Veja-se agora no caso das linhas de crédito COVID-19: o Estado está a exigir, na maior parte das linhas, que as empresas apresentem situação líquida positiva, para as qualificar para os créditos bonificados.

Este artigo integra um conjunto de 3. No seu conjunto, visam apoiar os empresários e gestores de topo das PME, não especialistas em gestão financeira, a conhecerem melhor a realidade económico-financeira das suas empresas, a entenderem os mapas e os alertas que a contabilidade lhe faz chegar e a apoiar o planeamento económico-financeiro do futuro. Já abordámos no artigo 1 as demonstrações financeiras obrigatórias. Neste artigo explicamos a análise do Balanço e o equilíbrio financeiro das empresas. Deixaremos para o 3º e último artigo a Demonstração de Resultados e a performance económica da empresa.

I. Análise do Balanço e o equilíbrio financeiro das empresas

I.1 O BALANÇO

O balanço é o documento contabilístico que expressa a situação financeira ou patrimonial da empresa (ou organização em geral), em determinada data. O balanço agrupa os ATIVOS (lado esquerdo do mapa) e o CAPITAL PRÓPRIO e o PASSIVO (do lado direito). A equação fundamental do balanço assegura que ATIVO = CAPITAL PRÓPRIO + PASSIVO.

Vejamos cada um deles mais em pormenor. Mas tenha sempre presente o diagrama da figura, vai ajudar a compreender os diferentes conceitos que a seguir se apresentam.

ATIVO.

O ativo contabiliza o conjunto de bens e direitos da empresa. Por outras palavras, representa o valor total investido na empresa. Por exemplo, depósitos bancários, edifícios, créditos sobre clientes, etc.

O ativo reparte-se em: Ativo não corrente – representa a aplicação de capital de longo prazo (+ de 12 meses) e Ativo corrente – representa a aplicação de capital de curto prazo.

O ativo pode ser aumentado de diversas formas:

– Venda de produtos/serviços. Se o cliente pagar a pronto, aumenta a liquidez. Se o cliente pagar posteriormente, aumenta o crédito sobre clientes. Assim que o cliente liquidar a fatura, o ativo não se altera, apenas há uma transferência do crédito do cliente para a “Caixa/Bancos”.

– Empréstimo de sócios (suprimentos). Aumenta o valor de “Caixa/Bancos” por contrapartida do aumento dos capitais próprios.

– Empréstimo bancário. Aumenta o valor dos depósitos bancários na mesma medida em que aumenta o passivo, rúbrica de financiamentos obtidos.

O montante dos ativos per si, não indica se a empresa está equilibrada ou não. É através da comparação com o passivo essencialmente, que essa análise deve ser efetuada.

CAPITAL PRÓPRIO.

Conjunto de bens colocados pelos sócios/accionistas ao dispor da empresa.

O reforço de capital próprio é realizado habitualmente de 3 formas: entradas de capital, empréstimos de sócios (suprimentos) ou resultados transitados.

Em termos estruturais, quanto maior for o capital próprio, menor a dependência dos passivos face aos ativos, maior o equilíbrio financeiro da empresa. Significa que, como o investimento de fontes internas é relevante, os ativos têm uma cobertura superior dos passivos, a empresa é mais autónoma de terceiros e tem maior solvabilidade.

Quando os capitais próprios estão negativos a empresa está em falência técnica. Se o valor dos Capitais Próprios diminui para valores inferiores a metade do Capital Social (em face de resultados transitados negativos, por exemplo), deve tomar-se em consideração o artigo 35º do Código das Sociedades Comerciais, que obriga as empresas a optar por uma das seguintes medidas:

a) A dissolução da sociedade;
b) A redução do capital social para montante não inferior ao capital próprio da sociedade, com respeito, se for o caso, do disposto no n.º 1 do artigo 96.º;
c) A realização pelos sócios de entradas para reforço da cobertura do capital.

PASSIVO.

O passivo corresponde às obrigações que a empresa tem perante terceiros, sendo por isso também designado capital alheio ou dívidas da empresa.

Tal como o ativo, o passivo também se reparte em 2 grupos, conforme o prazo das obrigações: passivo não corrente, para prazo superior a 12 meses, e passivo corrente, para compromissos a pagar num prazo igual ou inferior a 12 meses.

Exemplos de passivos:

– Empréstimos bancários;

– Faturas de fornecedores;

– Impostos a pagar ao Estado (por exemplo, IVA recebido de clientes a entregar ao Estado).

Ter passivos não é, em si, representativo de problemas. Ter níveis de responsabilidades com terceiros (passivo) superiores aos direitos (ativos), é que já pode ser revelador de desequilíbrio financeiro.

I.2 EQUILÍBRIO FINANCEIRO (RÁCIOS)

São principalmente 3, os rácios utilizados para aferir o equilíbrio financeiro da empresa.

Autonomia financeira = Capital próprios / Ativo. Representa a maior ou menor capacidade de uma empresa em fazer face aos seus compromissos financeiros através dos seus capitais próprios. Quanto maior a autonomia financeira, mais a empresa é “autónoma”, menos dependente de terceiros, para cumprir as suas obrigações financeiras.

Solvabilidade = Capital próprio / Capital Alheio. A solvabilidade é um rácio financeiro que mede a relação entre os capitais próprios de uma empresa e os capitais alheios: Permite avaliar o risco da continuidade da empresa a longo prazo – um valor baixo indica, sobretudo, uma grande fragilidade económico-financeira por parte da empresa.

Já se viu que estes 2 rácios são idênticos quanto aquilo que procuram avaliar. Mas quer um quer outro, não levam em consideração um aspeto fundamental: o prazo dos direitos e das obrigações – a liquidez.

A liquidez significa ter disponibilidade de dinheiro ou facilidade na sua obtenção para satisfazer os compromissos que se vencem no curto prazo. De uma outra forma, a Liquidez Geral = Ativo corrente / Passivo corrente. Percebe-se facilmente que, se uma empresa apresentar um valor abaixo de 1 neste rácio, terá certamente muitas dificuldades para cumprir as suas obrigações no curto prazo, isto é, terá um valor maior de obrigações a cumprir do que os direitos de receber a curto prazo. É um rácio da preferência dos analistas de crédito.

Não existem valores padrão para cada um dos rácios apresentados. Deve ser feita análise comparativa com outras empresas do setor (por exemplo, recorrendo à Central de Balanços do Banco de Portugal, onde pode ser encontrada excelente informação para este efeito sobre praticamente todos os setores).

Também depende muito do custo do financiamento. Em alturas de juro elevado, os empresários tendem a recorrer mais às suas poupanças para financiar a atividade da empresa, situação contrária quando o juro está com taxas reduzidas e existe liquidez no mercado.

II. Situação líquida e fundo de maneio

II.1 Situação líquida positiva

Chegados aqui, vai ser muito fácil perceber o que é uma situação líquida positiva. A situação líquida da empresa, mede-se pela diferença entre ATIVO e PASSIVO. Assim, três tipos possíveis de situações líquidas:

1 –  Situação Líquida Nula: Activo = Passivo

2 –  Situação Líquida Positiva: Activo > Passivo

3 –  Situação Líquida Negativa: Activo < Passivo

Em muitas das linhas de crédito designadamente com apoio do estado, só são elegíveis as empresas que apresentem uma situação líquida positiva.

II.2 Reforço de tesouraria e fundo de maneio

Reforço de tesouraria é um conceito simples e de mais curto-prazo: significa necessidades de financiamento reforço imediato da liquidez, para fazer face a obrigações de curto prazo.

O fundo de maneio é o montante necessário para que uma empresa consiga assegurar o normal financiamento da sua atividade. É uma espécie de almofada financeira para que estas mantenham a capacidade de assegurar a liquidez a curto prazo.

Fundo de maneio = ativo circulante – passivo circulante.

Caso prático: uma empresa apresenta os seguintes valores de ativo circulante: 10.000€ em caixa/bancos, 15.000€ em existências (sctok), 30.000€ em clientes; total de 55.000€. Já em passivo circulante: 30.000€ a fornecedores, 10.000€ de IVA a entregar ao estado e 20.000€ de salários; total de 60.000€. Fundo de maneio = 55.000€ – 60.000€ = -5.000€.

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Carlos Gouveia, CEO – SCORING